Mas, além disso, há uma cena que particularmente me tocou: quando da visita à penitenciária, o menino escuta de Rubim a razão de ter conseguido sobreviver até ali: a literatura, o fato de estar lendo livros e escrevendo um livro (no qual parte do filme se baseia). Lembrava de Dostoievski, Zola, Wilde, escritores que fizeram obras-primas na prisão. Mas o mais importante era a idéia implícita de que o ato de escrever "é mais poderoso do que o soco mais poderoso". Que, ao escrever, a pessoa transcende sua situação real e a sublima de forma tal que sai de si mesma e do lugar onde está. É uma idéia carregada do sentimento no qual Rilke baseia suas elegias: o duplo domínio entre o céu e a terra (doppelbereich), o sentimento de que tudo, das primaveras às estrelas, pode se tornar missão quando a pessoa se dispõe a escrever. Nesses momentos, "é estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra, abandonar os hábitos apenas aprendidos, às rosas e outras coisas igualmente promissoras" (Rilke, Rainer Maria:Elegias de Duíno, Primeira Elegia).
sábado, marzo 30, 2002
Mas, além disso, há uma cena que particularmente me tocou: quando da visita à penitenciária, o menino escuta de Rubim a razão de ter conseguido sobreviver até ali: a literatura, o fato de estar lendo livros e escrevendo um livro (no qual parte do filme se baseia). Lembrava de Dostoievski, Zola, Wilde, escritores que fizeram obras-primas na prisão. Mas o mais importante era a idéia implícita de que o ato de escrever "é mais poderoso do que o soco mais poderoso". Que, ao escrever, a pessoa transcende sua situação real e a sublima de forma tal que sai de si mesma e do lugar onde está. É uma idéia carregada do sentimento no qual Rilke baseia suas elegias: o duplo domínio entre o céu e a terra (doppelbereich), o sentimento de que tudo, das primaveras às estrelas, pode se tornar missão quando a pessoa se dispõe a escrever. Nesses momentos, "é estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra, abandonar os hábitos apenas aprendidos, às rosas e outras coisas igualmente promissoras" (Rilke, Rainer Maria:Elegias de Duíno, Primeira Elegia).
jueves, marzo 28, 2002
Ah, coisas antigas... Em meio ao tumulto de passageiros, subi no vagão, permanecendo na plataforma parentes e amigos... Por que agora evoco este filme?
y yo
busco
definiciones
citas
acercamientos
explicaciones
reflexiones
pistas
recetas
taladran el oído
el silbato de alarma
alarma Ingeborg Bachmann
Tantas meditações pacientes mas longe de serem tranquilas nos são necessárias até quer nos sintamos seguros... Luna respondeu o mail, o que não deixa de ser surpreendente, mas também tem seu lado previsível, sempre as coisas acontecem de modo diferente do que se espera, o amanhã nunca é como se apresenta num primeiro momento, e jamais como, supostamente, deveria ser...
lunes, marzo 25, 2002
O mal cresce, dentre outras coisas, porque está informatizado; e a grande ironia é que as tecnologias da informação, que tanto prometem em nível social, pouco devolvem daquilo se investe nesse sentido. Não houve, por exemplo, um avanço significativo da produtividade, em virtude do computador; e, quando houve, isso não se traduziu em benefícios, como mais tempo de lazer para o trabalhador, mas, ao contrário, em desemprego. A própria internet, como ferramenta de comunicação, aproxima pessoas, mas, pela própria superficialidade das relações instantâneas que estimula, acaba por criar novos laços, sim, mas cada vez mais superficiais. Porém, quando se trata de maquinar atentados, por exemplo, usa-se a mesma rede, com sucesso, porque um atentado não exige profundidade de laços entre criminosos.
Como disse Hobsbawn, a globalização foi usada como arma no dia 11 de setembro, com as idas e vindas das pessoas entre os países, com a facilidade da comunicação entre elas. O mundo moderno, pela própria sofisticação, é vulnerável. Os celulares que marcam festas são os mesmos que coordenam seqüestros. É uma sociedade que teme a violência, mas a incentiva, quando não se estabelecem limites; quando os professores são despreparados, e quando se acredita que serão melhor preparados apenas com um aumento de salário; quando os pais protegem filhos respaldados não em valores mas no seu poder econômico; quando se faz do voyeurismo um modo de vida enquanto simultaneamente se busca superar os transtornos na interação social. Ou seja, quando se quer ao mesmo tempo oferecer bebida e combater o alcoolismo.
Condena-se a corrupção, mas toda a engrenagem atua no sentido de facilita-la. O próprio Estado de Direito, nesse contexto, deforma as instituições, faz desse mesmo Direito um veículo de um mar de hábeas corpus para criminosos comuns como o são os bandidos de colarinho branco; a contabilidade do tráfico e a contabilidade dos governos subterrâneos têm uma percentagem relevante do faturamento destinada às propinas, e só há corrupção onde existe o elemento corrupto junto ao corruptor. O poder econômico se junta ao poder de intimidação da violência no controle da sociedade, cujos membros estão tão imersos na própria “liberdade” pessoal, que nem percebem o quanto as coisas se deformam a seu redor. Dizem-se livres, mas são eles mesmos escravos, uma vez que o escravo tem de se submeter ao seu senhor, como no caso do amor do dinheiro em si mesmo, do amor de si mesmo, do amor do prazer a qualquer preço.
E, se o computador e as telecomunicações não podem gerar emprego e renda — ao contrário, eliminam mais postos de trabalho do que criam —, se não conseguem fortalecer os laços de afeto — apesar de aumentar a lista de contatos com os e-mails e programas de mensagens instantâneas—, podem disseminar rapidamente a devassidão, as deformações, o crime. Independente do que concluam as investigações sobre o “terapeuta”, é claro, pela própria existência das fitas, que há uma ligação internacional entre esse tipo de pessoas. Decerto a maioria das pessoas de bem não se sentiria invadida se, para prevenir tais males, houvesse menos direitos à privacidade — desde que assim também fosse possível haver mais direito à dignidade, para um número maior de pessoas, e esse gênero de “médicos”, de “advogados”, de “empresários”, de “padres” e “pastores” tivessem um espaço cada vez menor de espalharem suas doenças e fazer delas chagas coletivas da própria sociedade.
A esta altura, porém, talvez seja quase utópico pensar nisso sem que isso leve a uma retórica maniqueísta, o que não é definitivamente uma solução. Parece que o bom-senso do equilíbrio é um ideal cada vez mais distante e a sociedade doente parece cada vez mais um paciente terminal.
viernes, marzo 22, 2002
UMA
MENTE BRILHANTE
Bem,
há decerto pontos de contato entre "Uma mente brilhante" e “Alucinações
do Passado”, de Adrian Lyne, demonstrando que esse elemento do filme, o das
alucinações que ganham status de personagem, não provém de “Sexto
Sentido”, mas em muito lhe antecede. Até mesmo as alucinações do personagem
de Russel Crowe e o de Tim Robbins (naquele remotro ano de 1990) giram em torno
de segredos militares. Mas as coincidências - ou influências—, param por aí.
As
supostas omissões biográficas não têm qualquer relevância quanto à
legitimidade do filme e, se fizer com que perca algum Oscar hoje, não lhe terá
feito absolutamente nada, num nível mais acima, no nível da arte, do clássico,
cujo terreno não é nem pode ser o hoje, mas vive no amanhã. Um clássico, por
definição, só o é se passar pelo crivo do tempo, não da crítica ou de um júri.
E, eu creio, “Mente Brilhante” tem todos os atributos para eventualmente, no
futuro, tornar-se um clássico.
É
importante, antes de qualquer coisa, considerar o que poucos têm considerado, e
aquilo no que o próprio filme não tinha como se deter mais: o aspecto
científico, econômico, que afinal levou Nash ao Nobel. O filme — porque
plasticamente lhe era pedido — se deteve muito mais na matemática, porém o
Nobel de 1994 foi de Economia, que é bem verdade utiliza a matemática, mas,
como ciência tem um caráter muito mais marcante quando elabora teorias, como a
de Adam Smith, teorias escritas com palavras, uma lógica expressa pela
linguagem, nos idiomas.
Qual
era a teoria de Smith? Ele pensou numa comunidade fortalecida pelas leis de
mercado. Isto é: o interesse pessoal, individualista, motiva as pessoas a
empreenderem negócios que adiante irão beneficiar a sociedade como um todo, ou
seja, a motivação egoísta trabalha em benefício da sociedade. Diz “não é
da bondade do açougueiro e do padeiro que esperamos nosso jantar”, mas sim do
interesse individualista que os levou a abrir esses negócios.
Mas
como poderia se manter esse mercado se o interesse pessoal, na gana do lucro fácil
fizesse o empresário elevar demais seus preços? A concorrência. Pela concorrência,
ele perderia fregueses para quem vendesse o mesmo produto mais barato; pela
concorrência ele perderia trabalhadores para quem pagasse mais, se diminuísse
demais o salário dos seus. Esses princípios são fundamentais para que se
entenda a obra de Nash e, assim, o próprio filme.
A
tal idéia original de Nash que atravessa o filme de ponta a ponta é a teoria
dos jogos, uma aplicação da lógica em nossos processos de escolhas. No jogo
entre duas pessoas, uma ganha exatamente o que a outra perde. Isso dizia o
primeiro desenvolvimento dessa “lei”, em 1944, por Neumann. Na cena do
gabinete entre os dois velhos amigos, um deles agora o diretor, outro tentando
voltar ao convívio humano, os dois concordam em que “na verdade, ninguém
ganha”. Obviamente estavam falando de vida, não de economia, onde de fato
essa lei vale.
Na
vida, um deles crescera, outro entrara num processo mórbido, mas, permanecendo
amigos, ninguém perdera, ninguém ganhara, a vida seguia em seu (frágil) equilíbrio.
Nash diz à mulher na cozinha: “O que as pessoas pensam”? Diante de seu
saber lógico, a sabedoria prática dela (que se evidencia desde a cena da
janela na sala de aula) é inexorável: “As coisas simplesmente acontecem, a
gente apenas lhes atribui valores”. Ou, voltando ao processo da escolha,
escolhemos o que fazer com o que a vida nos dá. Esse
é o gancho permanente do filme. As alucinações não desaparecem, ele escolhe
não mais lhes atribuir qualquer valor.
O
equilíbrio de Nash, sua idéia original, é pegar a teoria de Smith e
acrescentar que, sim, é inevitável que se tenha motivações individuais, mas
os jogadores da vida, em suas escolhas, devem manter uma posição cooperativa,
não-concorrente nem antagônica (e nesse ponto é esplêndida a cena do bar). A
grande virtude do filme é fazer de um tema tão árido, algo emocionante. Se
alguém precisa de razoes para que se ache o filme bom, isso deveria bastar.
Porque pegar algo emocionante e emocionar pode ser arte; mas pegar algo sem
nenhum apelo e emocionar ainda mais, isso é obra-prima.
E
como faz isso? Em primeiro lugar, é claro, com o diretor Howard e os atores.
Sobre estes, muito tem se falado sobre Russel Crowe mas quase nada sobre
Jennifer Connely e, quase sempre, opiniões pouco elogiosas, e nadinha sobre Ed
Harris e Christopher Plummer. Especialmente acredita-se que o papel de Jennifer
“não é difícil”, que “não tem nada de mais”. Ora, mas é exatamente
esta a grandeza deles! Quem deve brilhar é Crowe, quem deve passar tudo para o
público é o astro. Mas jamais o faria sem esses contrapontos. Jennifer está
especialmente brilhante! Em nenhum momento “rouba” a cena, simplesmente
porque essa não era sua função. Mas, quando aparece, é decisiva para
“roubar” a cena para Crowe.
E
a música? A música “comenta” as cenas de modo semelhante. Também aqui,
dificilmente se perceberia a qualidade das cenas, se não fora a trilha sonora.
A fotografia igualmente (as árvores do campus, por exemplo, e as folhas caídas),
enfim, tudo atua no sentido de fazer de “Uma mente brilhante” não, como já
se disse, um “documentário”, até porque já se falou que há omissões no
roteiro quando relacionado à vida do cientista. Mas, diante do que se propõe,
é um filme que cumpre seu papel.
No
meu caso pessoal, saí do cinema cheio de idéias para minhas próprias
escolhas. E que mais poderia desejar um filme do que isso, do que inspirar as
pessoas à vida?
El cuerpo se dobla
y el hígado chorrea.
El corcho que un clavo
cruzó.
Peso lo que pesa el metal
Vivo
Pase alguien la mano por aquí.
Nubecitas
dibuja
la pelusa del agua.
La Risa Casual de un Clavo:
eso vivo.
Selva Pascale
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