Um após outras as
casas se levantam e tombam , desmoronam são ampliadas,
removidas, destruídas, ou em seu lugar irrompe um campo aberto, uma usina ou um
atalho
Las
revoluciones, transformaciones sociales radicales y aceleradas hechas de
circunstancias, no simpre, o casi nunca, o quizás nunca son maduradas y
previstas cientificamente. (Che
Guevara, “Pasajes de La Guerra Revolucionaria”)
Vou viajar na próxima segunda-feira para o Rio, por uma estrada que decerto muito percorreram antes de mim, com uma visão de mundo que procura ser justa com pessoas e coisas, independe de seus status e conceitos normalizados. Não será apenas uma mudança geográfica: vou deixar a rede — vale dizer: os blogs, os e-mails e o icq. Para que entendam a dimensão disso para mim (e para que eu mesmo possa avalia-la), vou contar duas histórias, uma sobre viagem e outra sobre a internet. Algumas pessoas já conhecem pelo menos uma dessas histórias, mas vou contar assim mesmo.
A primeira, com relação a viagem (sem crase, não à viagem, a que vou fazer segunda-feira) diz respeito a mim mesmo.
Em 1988, eu trabalhava num grande jornal do interior de São Paulo, em São José dos Campos. Era registrado em carteira, pagava o sindicato, e tudo o mais. As pessoas gostavam de mim (um detalhe importante para alguém tímido e anti-social como eu), respeitavam meu trabalho —copydesk, eu trabalhava na editoria internacional, isto é, pegava os telex, selecionava as notícias do mundo, refazia o texto, titulava, e, se fosse o caso de chamada na primeira página, ia para a sala dos diagramadores. Mas também ajudava na Revisão, e no Past-Up, que era, no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, a revisão da página já montada.
Muito bem. Até ali, eu trabalhava toda uma vida em jornais, assinava matérias, mas não tinha diploma, o famoso diploma de Comunicação. Mas, com absoluta certeza, era um jornalista, e modéstia inclusa, um bom jornalista. Mas começava a perseguição. Primeiro, os editores-chefes advogaram nossa causa. Jornalista se fazia em jornais, não em faculdade, diziam, até pelos seus próprios veículos. A pressão, todavia, foi muita e cada um começou a tratar de si, para não serem atingidos eles mesmos, providenciaram provisionamentos, enfim. É claro que quem entrou na idade de fazer faculdade uma década depois e pôde efetivamente faze-la (detalhe fundamental) e escolheu Comunicação, estes não tem rigorosamente culpa de nada da época, mas é no mínimo uma ironia que muitos hoje, ao ficarem desempregados, reclamem com tal veemência, dos “interesses corporativos”, quando na verdade o desemprego atual tem outras razões, dentre as quais a tecnológica, a saber, ligada às mesmas tecnologias de que fazem a apologia.
Sabem quanto na atual degola se deve, por exemplo, aos programas de correção ortográfica e gramatical? o quanto à política econômica, à pressão competitiva que induz a um feroz corte de gastos? à globalização, as metas impostas pelo FMI ao País, que acabam afetando as empresas? — e por aí vai. Interesse corporativo é outra coisa. Aquilo sim era interesse corporativo, isto é, ligado a um grupo organizado, onde podemos incluir os próprios sindicatos à sombra de peixes grandes de nossa sociedade, os donos de faculdades e cursinhos, os filhinhos de papai (e seus papais) que d outra forma jamais poderiam assumir com credibilidade funções de assessoria de imprensa nem trabalhar em jornais — jamais dos jornalistas profissionais, que nada tinham a ganhar e muito a perder com a nova lei da obrigatoriedade. Aliás, pelo nível dos jornais hoje comparado aos da época, vê-se que o jornalismo em si tinha muito a perder. E, aliás, este é exatamente o conteúdo da decisão da juíza que eliminou a exigência legal do diploma, um pouco tarde, infelizmente. Agora, a questão não é mais ter ou não ter diploma, agora a questão é que estão acabando os postos de trabalho, para quem tenha diploma ou não.
Então, eu parti. Na verdade, estava movido também por motivações amorosas, eu tinha uma amada na Europa, achei que ter também um emprego resolveria os dois problemas — a distância dela e a pressão no Brasil. Não foi bem assim, e, alguns meses depois que eu cheguei a Lisboa, estava na mais absoluta miséria e solidão. Tentei a sorte em Madrid, mas o que consegui com isso foi passar mais frio e fome, ao relento, no inverno que então começava. Alguém teve compaixão de mim e fui salvo. Alguém para quem ninguém jamais fez ou fará um post, que jamais será cantada em prosa e verso num blog, mas tinha uma misericórdia revolucionária. Porque hoje se usa e abusa da palavra Revolução: o Icq foi uma, os e-groups, o e-mail, o blog. Mas tecnologia, sozinha, não faz revolução, nunca fez. Pessoas sim, com ou sem tecnologia. No caso do blog, a revolução estaria no fato de que são essenciais como forma de expressão e reação do indivíduo em um mundo cada vez mais regido por interesses corporativos [...] e que nesse mundo a avaliação crítica se faz mais importante. Importante por quê? Aonde nos leva? No sentido de uma revolução, como querem tantos?
A melhor definição de revolução ainda é a de Che. A internet não se encaixa aqui, nem os blogs, o e-mail, o icq. E aqui chegamos ao segundo ponto: a internet foi uma das maiores invenções do ser humano. Por que então não se transformou, de fato, numa revolução do modo de vida das pessoas, de um estado de estagnação para uma vida melhor e mais livre e justa? Por causa do... ser humano. E aí eu me lembro da segunda história.
Em 2000, eu fazia parte de um grupo. Um dia, chegou um e-mail, que era, a rigor, um spam, falando sobre um menino de 7 anos que tinha uma doença rara e precisava de transfusões de sangue tipo tal para sobreviver e, quem sabe, ser curado. Uns do grupo simplesmente encaixaram a mensagem no conceito de spam e um moderador pagou geral. Entretanto, uma moça do grupo, residente no Espírito Santo (longe do menino, que estava no Rio), que trabalhava em telemarketing, contatou uma pá de gente, até enfim conseguir com um capitão do Exército que pusesse os homens a seu comando à disposição da família do menino. Isso aconteceu e, algumas transfusões depois, o menino estava melhor, fora de perigo. Hoje, vive uma vida cheia de cuidados por parte de seus pais, mas pode-se dizer que quase normal. Muito bem, o que o salvou? A tecnologia do e-mail? Naturalmente, quem o salvou foram, pela ordem: a moça do grupo, o capitão e os soldados. Mas, é claro, se não existisse e-mail, nunca ninguém saberia de seu problema. Quem me salvou na Europa? A pessoa que me abriu sua casa mesmo sem me conhecer. E, no caso, soube do caso mesmo sem qualquer tipo de tecnologia. Aliás, fico pensando se na época eu pudesse ter acesso a um grupo, a um blog, de, digamos, um café com internet (que então engatinhava). Será que eu teria sido salvo pela união de todos os blogueiros do mundo? É difícil responder, mas é interessante especular a respeito.
E agora, estou indo embora, basicamente por causa de não conseguir mais emprego, que, como sabemos, está complicado, e estaria mesmo se não houvesse a questão do diploma. A situação é desesperadora. Na verdade o Brasil ainda é um País privilegiado em termos de índice de desemprego, paradoxal como possa parecer. Em 1998, a taxa era de 9%, pequena em comparação, por exemplo, com a Espanha (mais de 20%) e no mesmo nível da Alemanha (cerca de 12%). O complicador no caso do Brasil, é que não temos uma política de bem-estar social e há uma cultura de se apegar a emprego, não a trabalho, não há a noção de que logo viveremos num mundo sem empregos, onde será preciso que se criem novas perspectivas para a sobrevivência.
Enquanto isso não chega de todo, vou para o Rio. Quem sabe retorne aos livros de bolso, aos serviços de ghost-writer, sei lá, talvez seja uma idéia até o retorno às redações — quem sabe volte às impressoras off-set, por que não? Será uma viagem para longe da rede, por um tempo. Preciso dele. O fato é que “Pc e modem”, que para muitos é o bastante para a tal da revolução, está longe de ser uma inclusão generalizada, não é todo mundo que tem acesso, apesar do politicamente correto discurso contra a exclusão digital. E, por exemplo, sobrevivi com um computador dois anos conectado por só conectava de madrugada e domingos. E, mesmo que houvesse essa igualdade, as tecnologias da informação, de fato, não tem uma influência relevante no aumento GERAL da produtividade e, quando tem, o que acontece não é bem-estar, mais horas de lazer ou melhores salários; ao contrário, quando há esse “progresso”, o primeiro sintoma é exatamente desemprego. Então, a revolução, ou seja, uma transformação social radical e acelerada, é efetivamente uma necessidade. Se os blogs e o Icq já fossem uma, não estaríamos com certeza nessa situação. Culpa da tecnologia? Naturalmente não. O problema é que, enquanto ficamos girando em torno de nós mesmos, não agimos no sentido de mudança. Assim, o blog e o icq, como e-mail, que poderiam efetivamente ter um uso revolucionário, tornam-se ao contrário, uma excelente ferramenta para a manutenção de todos os vícios do sistema e da sociedade, que começam exatamente no egocentrismo das pessoas. Em outras palavras, a tecnologia de ponta precisa de pessoas de ponta, fazendo coisas de ponta — o que normalmente implica em ser diferente dos demais, o que por desagradável, por desconfortável que seja, é essencial e o que hoje menos se vê. Todos fazem tudo igual.
Não faria mal algum se a teia-trilha de links, parte do caminho de qualquer pessoa que busque informação e diversão na internet, pudesse interagir também no sentido de mais solidariedade efetiva entre as pessoas nos maus momentos de cada uma. Utopia? Talvez, mas que seria de nós sem uma boa utopiazinha? Porque, e aqui eu acho que reside a chave de tudo, o que há na rede, além de “um Pc e um modem”, é uma total falta de compromisso, sem o que nada vai adiante na vida, muito especialmente as revoluções.
