domingo, marzo 16, 2003

Na verdade, as cidades da Europa, pensei enquanto Michel arrematava sua confecção, girando o cilídrico de haxixe na boca, cada uma oferecia seu clímax próprio naquele continente dito decadente, acusado de xenofobia, um passado colonialista e pretensões antropológicas, mas sempre fascinante aos olhos do estrangeiro, como o salão de uma duquesa do século passado, regurgitando de gente espiritual sequiosa do convívio que impunha nobreza às pessoas, qual lápides de sepultura - magnificente frivolidade, tentação a que não resistiram nem mesmo os grandes de uma arte refratária ao tempo, perdendo-se no sarau como se não houvesse o juízo das gerações futuras, como se fossem meros artistas e da estética de fatuidades. Eu não resistira. Agora procurava desesperadamente me despojar, ignorar novas tentações: apesar de desempregado, eu fora convidado por uma linda secretária do Palácio Foz para um coquetel que estava sendo oferecido naquele exato momento para os jornalistas brasileiros em Lisboa. Eu precisava regozijar por partilhar da companhia subterrânea de outros estrageiros na península, perdidos na nnoite distante de borbulhantes confraternizações elitistas.

Paulo, o entroncado moreno do Porto, estava falando, em inglês, por onde, com exceções, corria nossa conversa, quando voltei de meu devaneio, alguma coisa sobre mulheres...

"O sexo e o sentimento são para elas a mesma coisa, normalmente, ou duas coisas tão ligadas que terminam por se tornar uma só. Via de regra, quando bebem do prazer, bebem do amor. O homem não associa assim uma coisa à outra, ainda que muito ame. Admitimos que a imagem da amada possa se apagar por momentos e o coração transmite outras imagens, mesmo pulsando em si o pronto ressurgimento da amada."

"Donde o espírito possessivo toma conta delas" - Daniel, o italiano que vivia em Barcelona, fez uma pasusa e iria concluir; mas Paulo, como que desabafando um caso recente, concluiu ele próprio: "Como uma possessão mesmo, é o demônio particular das mulheres".

"A mulher é que é um demônio" - contrapôs Daniel.

"Engaño, pibe. Una mujer no pasa desapercebida." - a ironia musicava o castelhano de Michel.

Paulo, por sua vez, carregava sua melancolia de um forte sotaque lusitano: "Su codigo es mistico". Suas feiçoes acompanharam as palavras, levando à confissão de uma mágoa nas entrelinhas. O silêncio dos outros estabeleceu compreensão que o permitiu continuar desabafando em queixa velada seu romance abalado pelo ciúme e não reerguido pelo perdão: "Para elas, a amante eventual é definitivamente traição, uma prova inequívoca de desamor quando na verdade provam apenas uma tendência polígama primordial. Aventuras não significam nada..."

"Não significam nada para nós"- Daniel completou, acrescentando: "O caso é que aventuras para elas, siginificam sempre alguma coisa e as pessoas não exercitam esse maravilhoso som de julgar segundo critérios que não sejam necessariamente os seus."

Soava engraçado quatro jovens estrangeiros nas ruas movimentadas da "movida" madrilena, levados pelos primeiros toques do cânhamo no cérerbro, a semelhantes divagações. Enquanto Paulo se perdia na imagem motivadora de seu arrazoamento, Daniel - depois de receber de Michel o "charro" e fazer nele a "gravata" de saliva para retardar a queima - concordou que: "Os homens, mesmo privilegiando o lugar da amada, não resistem à possibilidade de terem outras,. outros lugares.

"Y he aqui una mujer le sale al encuentro..." - sorriu Michel.

Passaram três mocas no sentido contrário, provocantes: Ele virou-se e as seguiu no decurso de alguns passos: "Mujeres, vosatras las chicas, no valeis nada, no sois nada, no teneis sentimientos, ni corazón, ni entrañas - no quereis ninguna salir conmigo?"

Enquanto Michel, voltando, passava os braços nos meus ombros e nos de Daniel, dei minha contribuição para o assunto...

Ricardo_de_Almeida_Rocha

sábado, marzo 15, 2003

Ouço um trem. Uma buzina. Outra. Vozes. Passam pelas calçadas. Só quem, sendo uma alma morbidamente susceptível, sofreu a miséria, saberá o que seja a pressão a que se é submetido quando não se faz parte do jogo, as humilhações dolorosas e as alegrias potencializadas de um subterrrâneo. Eu, porém, sou no fundo absurdamente normal, e de dura cerviz. Mas sofro, de um jeito ou de outro. Só quem vivencia realidade semelhante poderá imaginar o quanto eu sofro.

Não era assim após o filme em Madrid. Pelo contrário. Estava então sereno, cheio de esperança. Encaminhei-me, com postura e respiração de peito, para um ronda que me deixasse na zona das sopas e vinho, pronto a entrar na taverna mais barata, entra a Porta do Sol e a Praça Maior. Passando por uma banca de jornais, bati o olho num postal sem foto, apenas uma plastficação negra de cartão, espelhando a lâmpada do poste. "Noche. Madrid". Sorri. Comprei. Virei-me e devo ter dado uns cinco passos. Um rapaz me pediu um cigarro. Depois de acendê-lo, propôs-me um chocolate. Dialeto dos fumadores de THC. Maconha, cabonha, ganza, erva, hashis, haxixe, kaia, liamba, joint, pito, porro, charro, chá, chamón - o ficionado sabe que são pinturas diferentes de uma mesma porta, para um mesmno lugar, independe o efeito do nome. "Chocolate", agora: o carimbo do passaporte para a fronteira. Se eu deveria ou não ultrapassá-la, er aum outro, velho e complexo problema no qual eu podia me dar ao luxo de me deter então - o mundo passa, e seus mistérios. O que eu loucamente necessitava era não de droga mas de interlocutor, e a erva sempre se prontificava, sem as cobranças do amigo e - principalmente - da amiga humanos.

Assim que lhe dei o dinheiro da minha parte, o rapaz foi ter com um vulto na transversal da avenida onde estávamos, do outro lado da rua, sem dizer palavra. Voltou e fomos andando enquanto ele preparava o cigarro. O rapaz, Michel, suíço, pronunciava o espanhol tão corretamente quanto Sting no filme - ele pórem era real como minha alma dilacerada, inclusive cantando o "lhú" de lluvia (começavaa chuviscar) e o "lhê"de calle (convidara-me para ir tomar a sopa num clube noturno e agora me explicava o caminho), diferentemente dos latinos americanos, que davam aos dos eles som de jota. No percurso, pelo cheiro, juntaram-se a no's um italiano e um português. Eu ouvira falar, em Paris, Roma e Lisboa, acerca de Amsterdan, auge dessa europa paralela, a verdadeiramente una, subterrânea; saberia depois o quanto fazia parte do esquema vigente, mas agora estava iludido. Desde o Brasil pensando em mim sobre um bicicleta indo na direção de Den Haag Utrecht, contra o vento aberto no percurso de casinhas ajardinadas e tetos graciosos, à semelhança das casas de boneca. Possivelmente, nunca iria conhece-lo.


Ricardo_de_Almeida_Rocha

viernes, marzo 14, 2003






Meses depois


Meses depois - agora há poucos minutos de quando escrevo esta
parte da narrativa -, quando voltasse a ver o filme em Lisboa, numa sessão
reservada a jornalistas e cineastas para mostra dos processos inovadores da Alta
Definição utilizados pela RAI, por um pequeno detalhe - o espaço entre as
casas, de que Francesca não gostava por achá-los grandes demais, agente do
afastamento das pessoas da cidade -, eu pressentiria Trieste, e confirmaria mais
tarde a intuição. Nessa sessão futura, em que os cuidados técnicos esmerados
subtraíram ao filme aquele halo de magia, substituindo-o por um tipo de
video-tape grosseiro, apesar de tecnologicamente de ponta - algo como trocar a
pintura de uma mestre pela foto da paisagem que o inspirou -, nessa outra
sessão em Lisboa, quando Sting falava com sua própria voz o inglês original
do filme, experimentei angústia palatal - pelo contexto terminal em que me
encontro agora, pelos dolorosos resquícios blandínicos na alma e porque, já
conhecendo uma uma ficção dramática e tendo aceito as horas que dentro dela
passamos como um tempo vicário onde a ilusão assume o papel da realidade com o
nosso aval, quando voltamos a nos deparar com essa obra, após termos visto os
atores recebendo prêmios mundanos, em entrevistas ególatras, ou simplesmente
em outros papéis, ou na futilidade de vidas sem qualquer papel no mundo, ao
revermos essa ficção, depois que passou pela lisonja ou escárnio da crítica
e pelo julgamento do tempo, e, sobretudo, quando somos forçados a nos ater a
processos técnicos, - a narrativa perde a dimensão de vida que virginalmente
lhe concedeu nosso espírito numa primeira leitura, detemo-nos nos detalhes,
tudo se torna por demais evidente como fruto do engenho de uma humanidade vã,
verossímil demais para ser verdadeiro. Alguém que nunca viu o mar e se delicia
ao imaginá-lo pode não conseguir gozar os seus prazeres quando chega junto à
rebentação. A masturbação de um adolescente é mais gratificante muitas
vezes que as relações que manterá depois de adulto.





Ricardo_de_Almeida_Rocha

jueves, marzo 13, 2003

Apanhei a linha 7 até Pueblo Nuevo e a 5 até Ventas, dirigindo-me para a Estação de Callao, os cinemas, as sopas, as madrugadas imprevisíveis. Entrei após ver o cartaz de "Julia y Julia". A inverossimilhança de Sting falando um castelhano tão perfeito com Kathleen Turner, pela dublagem, fez da sessão um tipo estranho de terapia e saí da sala sereno, bem disposto. Não me ocorreu qualquer relação entre a bizarra película e Blandine, o que deve ter colaborado para minha tranqüilidade. E, no entanto, havia Trieste, aquela fronteira de barcos e aves, castelos e museus, e aventureiros ali se transformaram em meros diplomatas. Cidade que eu não conhecia e estava tão ligada a meu passado e destino. Se estabelecesse analogias (o que devo ter feito na intimidade misteriosa do subconsciente) entre Blandine e Kathleen, entre Sting e eu; se relacionasse aqueles cenários com os arredores da Della Sorgente, as ruas onde Blandine vivia seu cotidiano e caminhava ao sol, e aquele mar com o mar que devia extasiá-la todos os dias, talvez então a angústia da saudade e a ansiedade do reencontro não em deixasse concentrar em "Julia", nas fantasias em estado bruto, alheias à razão e ao sentimento, que ela produzia. Kathleen seria Blandine, seu amor por Sting seria o nosso abortado romance. Mas não ocorreu qualquer ligação: não evoquei Trieste, não lembrei Blandine. E saí ileso. Mais que isso, quase feliz, graças a esses mecanismos mentais que nos protegem de nós mesmos.




Ricardo_de_Almeida_Rocha

martes, marzo 11, 2003

Madrid. Passeei pelos labirínticos subterrâneos do trem metropolitano, contemplando a fauna de contrastes, dela eu era parte. Cheguei ao outro lado da cidade no princípio da noite, no brotar da multidão. Arrefecido o horário, restou a oferta de corpos; o burburinho nos bares; os adolescentes discutindo qualidade e preço. As jovens espanholas se exibem com
elegância e graça. Namorados se entregam a um romantismo anacrônico.
Empresários de simpatia vazia e exuberante lançam máximas ao mundo após o
expediente - si llevas dinero, te vas de copas... Alegria e fuga em dor
menor. Pedi uma informação a um rapaz, não entendi sua resposta, que a
escrevesse para mim, por favor. Adolescentes iguais em todo o mundo,
desembaraçados perante computadores mas incapazes de usar uma caneta, incapazes
de resistir, satisfeitos com o seu tempo, com a  arte da face subterrânea
que se mescla com a da alta-sociedade. O que estou fazendo aqui? Grupos
marginais nas esquinas se integravam aos lugares da moda, como os ventos se
agrupam antes de serem distribuídos. Apertos de mão em código, socos de
camaradagem e beijinhos descompromissados, alíneas de parágrafos inacabados.
Ao se dispersar um grupo, o passador deixa um pedaço gratuito como prova da
amizade débil.

Eu agora sentado no degrau de uma loja fechada, um policial olha fixamente o caderno que eu trazia no bolso da jaqueta e havia tirado para descrever a noite madrilena. Sua presença me incomodou e tomei novo a direção do metrô. Pouco depois, estava na avenida de Daroca,
ventava fortemente. De Vicalvaro até a entrada descampada da estação de Las
Musas, procurei definir o trajeto de minha peregrinação de notívago
passageiro do mundo que nasce quando morre o diurno e suas retidões.


 


Ricardo_de_Almeida_Rocha

Dúvidas e
apreensões impediam a entrada da luz e, nessa treva, eu escutava as
contrações da alma ofegante em chamas no purgatório onde anjos mortos
cavalgavam com tochas ao sol. E, por causa da treva, eu não captava a essência
não histórica do tema. Se Maio foi referência em paris, 1968 tivera outras, a
década, os séculos tiveram outras. Não só nas explosões coletivas mas
principalmente nos suspiros. Outras referencias: que significavam não tratando
da Humanidade mas para cada ser humano em separado?o Vietnã, a Primavera de
Praga, Che, Cuba, os Beatles os Kennedy, o muro de Berlim, Argélia, os
militares no Brasil, , Mao,  Contrane,  Luther King,  Profumo,
Master & Johnson, Brejnev, até  quasares supoe vida, revolução, e de
certo modo uma coisa é a outra, e por trás de cada nome milhões de
existências, revolucionadas ou conformadas. Se houve o Maio francês, o vento
já soprava, desde sempre meu amigo, as respostas. 


Saí sem
destino pelas ruas de Madrid.
  



Ricardo_de_Almeida_Rocha

lunes, marzo 10, 2003








Nova pagina 1




Um cartaz entrou pela janela que via
Madrid: Ahora es tu oportunidad. "Vale", pensei, evocando não
o "vale"-adeus do final de Dom Quixote (embora oportunidades
perdidas pudessem ter esse significado), mas o "vale"-amém dos jovens
obreiros evangélicos madrileños, tentando doutrinar dograditos na exposição
dos livreiros junto ao  parque, na rua íngreme próxima à estação.


Se na imagem reticulada a variação
cromática define na rede a imagem da foto embora as próprias reticulas não
sejam perceptíveis a olho nu, na alma humana a personalidade se imprime
primariamente pela índole e depois pela educação e o arbítrio ainda que
geralmente não se lhe identifiquem vestígios, sendo tudo atribuído a um ente
imaginário, criado pelos outros, que assume a pessoa toda, como se nela se
consistisse. A lupa da análise psicológica discirna talvez velados motivos
particulares, causas remotas e sem mais significado no presente, sem outras
finalidades além da retórica. Eu precisava nascer de novo, sair de minha
imagem pelo prisma alheio, tomar o destino a mim mesmo. Que eu e meu espírito
houvessem compaixão de mim e me conferissem a revolução interior chamada
mudança de vida, mais poderosa que um milhão de maios.


Mas eu hesitava.


      







Ricardo_de_Almeida_Rocha

domingo, marzo 09, 2003

Os tiçoes de tabaco encheram o quarto daquele desagradável odor característico de cinzeiros. O destino do que se escreve depende de alguma irreversivilidade alheia aos valores e humores dos que podem permitir a pulbicação? A matéria sobre o Maio, decidi, com ela me despediria do jornalismo.

Ricardo_de_Almeida_Rocha

sábado, marzo 08, 2003

O jornal informava sobre a tensão crescente no avião, mas eu acabara de ouvir que os sequestradores havia muito conseguiram escapar. Os reféns, libertados em Argel, concediam entrevistas. E, ao som da edição extra do noticiário, um jornalista, cujo sonho pelo muito sofrer no exílio era ser escritor, esse rapaz eu questionava a função do jornalismo atual. Nas redações se exigia um diploma universitário como prova de capacidade para o exercício da função; para entrar na universidade a vocação pedida era a da fortuna (nos dois sentidos). Em Congressos se discutia a forma correta de um idioma, como se não houvesse na linguagem espírito e fôlego. Enquanto isso, fanáticos que julgam agir em nome de Deus - me refiro aos terroristas do avião - manipulam os órgãos de informação para seus próprios interesses. Até o fuso horário usaram a seu favor. Diante de mim o matutino dava conta do que não mais interessava - especulações sobre os extremistas, o estado psicológico dos reféns, a lógica do terror etc - perante a única nova importante, a libertação dos reféns e a fuga dos sequestradores. Escaparam. Inclusive dos jornalistas, elite cujo maior propósito é ver o circo pegar fogo para enfiar o microfone na boca chorosa do palhaço.

E eu, eu continuava preso àquela engrenagem -patrimônio a qualquer preço -, era a minha profissão, embora eu não tivesse um diploma. Embora eu quisesse ser livre e os órgãos de comunicação servis, era o que eu sabia fazer. Fiquei de pé. Minha vida se tornara importuna. Era o que eu precisava agora, o elo de um emprego fixo. E o questionamento das verdades, proscrito, sonhava ainda com pessoas como eu não era, pessoas sinceras e corajosas como jamais fui, proscritos necessários - como um dia eu talvez? O escritor autêntico não tem interesse material além da sobrevivência, é livre; acredita tanto no que faz quanto sabe faze-lo e vive de acordo, incluindo rasuras e correções.

Eu não pensava nisso.

Era cerca de quatro horas daquele dia de abril em 1988 quando atravessei a rua da praça, correndo do bonde na direção dos Correios. O calor se pegava a meu corpo no dia deslumbrante. Entrei rezando para que houvesse correspondência e, agraciado, fui na direção da escada de pedra, assim que a descesse estaria próximo ao Tejo o suficiente para imergir nele os pés e fazer a leitura. Minhas mãos estavam trêmulas. Li o postal. Piumhi na foto estava mais bonita do que era de fato. A mensagem de Kléber me consolava da perda de Blandine, me incentivando a encontrar um novo amor - porque no fundo, talvez, ele, como irmão, soubesse o quanto o amor dela era único.

Na carta de Kátia, a letra era desenhada, sensual como ela mesma, manuscrita como se fora de forma, regularmente separada como sua própria dicção, clara e quente como aquele dia de sol.
Ao longo da leitura, as associações me levaram de Kátia a Francesca, ciclos fragmentários da memória, desejo do sucesso que ira viabilizar meus novos relacionamentos e resgatar os antigos. A luz do sol passando por uma nuvem arrefece mas adiante torna a devolver ao dia seu horário real. Meu relógio perdia o luzir por debaixo da manga comprida. Um mover de pálpebras ali à beira do Tejo e eu sonhava com Madrid, e Paris, e Milão ou regressava para Angola; outro agora, e lancei o jornal amassado à cesta de papéis. Alguém lá fora, no corredor do quarto do hotel madrileño, ao ouvir meu monólogo certamente pensou decerto que eu tinha companhia. Suspirei e cheguei à janela. De que adianta termos asas se não ousamos voar?
Ricardo_de_Almeida_Rocha

viernes, marzo 07, 2003


Olhei as olhas. O relógio registrava o final de abril, assim como o jornal que eu lia na cama, apoiado com os cotovelos. Noticiava o crescimento da tensão no avião árabe seqüestrado. Levantei meus olhos para o céu espanhol. Nas copas das árvores, caleidoscópios - o verde retinha as ultimas nuances do sol já imerso no abismo. Pouco me restava e tudo fragmentado, caótico. Como a um profeta, foram-me tiradas as coisas materiais, sociais, que eu prezava. Eu recalcitrava. Mas, aos poucos, eram-me tirados também os sentimentos de apego, de valorização das aparências e o conformismo ao conceito do que é básico, num processo irreversível, fatídico, escapando totalmente a meu controle. E eu disse: "Por quê?" - eu perguntava, eu queria saber; eu não era um profeta. As manhãs vinham, e depois as noites -grande es la sensación de solelad em ciudad grande - e meu coração se enchia de amargura. O sol atrai a terra e move-se no infinito, arrasta o planeta consigo, não permite que suma no vácuo; de solstício a equinócio, a humanidade vive uma estação - é assim. O inverno estava partindo mas o calor não enganaria a noção inevitável de outro inverno. Os dias se passavam, assim como as noites - quando seria eu resgatado? (aconteceria?); quando restaurado? Os utensílios de minha normalidade haviam sido tirados um a um: família, amor, amizade, pátria, um bom emprego e as facilidades que dele advém. As luzes se desprendiam das folhas e se esvaíam na noite, e me restava somente colocar o coração a serviço da fábrica em meus cadernos, junto ao que devia perdurar - os vislumbres pesados, as asas da sombra, a casa esperada, as esperanças febris -, junto ao tesouro sem traças que me restava.
O universo refletia da tarde na água.
Diante do cartão-postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, eu evocava meu primeiro diálogo com Francesca, levado pela intrínseca relação entre a reminiscência e os dois sóis, com minha vinda de um para o outro. Na margem do Tejo, o suposto vendedor de haxixe - na verdade caldo concentrado de galinha prensado com louro - abordava os estrangeiros, simpático enxame qual babel preguiçosa à beira do rio. Eflúvios tagídeos me esperavam na posta restante, na carta de Kátia, jovem que conhecera em Veneza, e nos instigamos, e ficamos naquele jogo de olhares e palavras dúbias, sugerindo a celebração íntima de um querer reticente, o implícito no limite da revelação. Enquanto isso dura, resiste uma inquieta amizade - e ficamos amigos. Agora, ela me escrevia de Muggio, falava de seus trabalhos e estudos em Milão preenchendo sua vida solitária, de suas muitas atividades, de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo um pulo a Moscou depois de uma breve excursão pelas capitais da comunidade européia, já beneficiando sem membros com a livre circulação de pessoas e mercadorias. Falava. Eu podia ouvir a sua voz, com uma naturalidade para mim apenas compreensível de quem diz ter ido ver o crepúsculo na varanda de sua casa. Ah, o tom confuso do mundo de camponeses e reis, dos pedestais da aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol.
Kátia não era personagem central em minha história, mas passava algumas questões centrais, como a da fidelidade, dilacerante dilema na vida do homem jovem que se acha velho demais para encontrar o amor perfeito idealizado na juventude. "Na noite, a chuva; na chuva, as lembranças" - escrevia ela - "e, nas lembranças da chuva, traços que ainda se juntam: você". A vida seria aquilo? - emoções que chegam com o destino recôndito de serem tragadas pelas pressões do cotidiano, pelas regras da sociedade, e pelas nossas próprias interrogações sobre o que é a vida? "Quis escrever antes, mas não encontras palavras; enfim, me decidi, pois que são palavras senão apenas signos inertes aos quais se atribui valor?" - eu lia e me perguntava se ela estaria certa; eu morria e tentava acreditar num resgate, que minha poesia pudesse transmitir a plácida vivência que nos predispõe a aceitar os sucessos e os infortúnios como se não fossem e nos ensina a ver pelo prisma da posteridade, era importante que o fizesse, mesmo fosse a minha uma posteridade de ninguém.
Também me perguntava por que afinal eu viera e quanto tempo ficaria na Europa. Eu não sabia. Talvez aquele continente tivesse arrastado minha alma morta, como o Ocidente chamou a Gogol; talvez aquele continente tivesse me trazido, como das Ilhas trouxe Joyce (Trieste latejava em meu sentimento) - como as palavras às vezes se escrevem a si mesmas. Eu não decidiria o dia de minha volta, se é que haveria um dia de voltar - um oceano se interpunha e eu queimara a ponte atravessada. O Brasil se tornara, após tantos meses, nada além de memória da bruma. "Eu queria ouvir de novo a sua voz", finalizava a carta, e eu não sabia mais o que querer, hesitava mesmo quanto a crer na validade de meus escritos, a minha voz: valeria a pena tentar dizer o indizível? A Portugal chegara com objetivos seculares, um emprego em jornal. Se no meio do caminho descobri a miséria e a grandeza da literatura, devia-se mais à vaidade da qual fugira. E corri-lhe ao encontro.
Então me vi na carta. Não é uma metáfora. Vi-me na carta. O papel fino me refletia ali sentado, recortado contra o trânsito fluindo no sentido da saída para o Porto. Um brilho imperial acinzentado cobre o casario nas ladeiras ao redor e o cheiro de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Há Kátia na memória de minha língua. Tamborilam as fontes nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio da esquina do Paço erguia-se triste em cicatrizes e olhos, duplicando-se abaixo, ao longo da poça no meio-fio. Minha gola de zuarte estava levantada até a orelha e as sobrancelhas encontravam-se na glabela. No cenho, a leitura converteu-se em saudade e dor. Ergui os olhos. As dragas sorriam ao empurrar as ondulações até a superfície sáxea que à direita marginaria a avenida até a torre de Belém. Se esperava a subsistência do jornalista e do escritor o nome, escapou-me um calafrio ao saber do delírio que, ao escrever, apenas deveria esperar manter a sanidade e transcender a fome e o frio.
"Hoje será transmitida a décima sinfonia de Beethoven..." - liguei-me nas palavras que nos fones eram-me transmitidas, mas um avião passando interferiu na audição; depois, sonoridades gloriosas de flash de apresentação invadiram meus ouvido, substituindo o locutor. Restou-me a idéia da vida legitimada após a morte; da ausência como única circunstância eterna (seremos meros acasos no mundo ou será o mundo o mero acaso em nós, pano de fundo das existências); de a perfeição possível ser póstuma, assim como a verdadeira vida: a imortal. Foi a última notícia, a descoberta do dez onde só há nove. Vagando eu nas cintilações da água à luz que a meus pés derramava as sombras do alegre grupo de língua francesa sentado em círculo à minha frente, tomou-me a irreversível necessidade da arte, que trabalha revertendo vicissitudes, pela voz feminina que abria o programa seguinte da emissora. Perdi-me nas possibilidades de minha vocação e, naquele labirinto, comunicou-se-me o velho sentimento temido, de missão. Eu me sentia entrar entrando, sem entender a causa. Mas descobri uma coisa: é preciso dizer tudo a todos de todas as formas para se chegar a algo que acrescente espiritual eugenia à carência de um sentido para a vida.
Lisboa, os portugueses a repartindo com europeus do Centro e do Norte, à vontade em leves roupas coloridas, ao chamado do sol ibérico, e com negros vindos das ex-colônias africanas, sentados atrás da igreja de São Domingos, logo ali depois da Praça da Figueira, ou à entrada dos Correios defronte ao à Estação do Metrô dos Restauradores. A primavera trazia o humor de seus humores tanto do verão que passara quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos. Give me light? - sorriu a descontraída jovem, cujo vermelho da pele acusava a palidez congênita.
Os mochileiros se movimentavam como numa festa íntima.
Eu estaria apto a lhes oferecer alguma luz, com a mesma naturalidade com que lhes acendia os baseados? Ou seria o recreio, e não mais, o jardim, e só isso - menestrel na festa européia, sem qualquer dimensão de arauto do mundo uno, na pluralidade de raças sugerida ali na rua Augusta, pregado por uns para a política da Comunidade Européia e, por outros, para toda a humanidade. Toda essa retórica era discurso de projeção pessoal, conteúdo de veias exangues - e ser sangue, esta era a missão do arauto. Usaria a imprensa e denunciaria o mal, onde estivesse. Ou seria a voz calando em meu canto do poluído planeta não só da luta de classes (esboçava em minha mente o artigo sobre o maio de 68), mas sobretudo da concorrência alucinada entre membros da mesma classe social, tentando a todo transe afluir para onde a serena dignidade dos ricos assiste, cúmplice, o espetáculo - fato declarado com clareza pela postura indolente dos turistas e a pressa desvairada dos homens e mulheres lisboetas fardados de sobrevivência, ali na Praça do Comércio.
Calcei-me e desci do mundo onde estava sentado à vista dos cacilheiros. Apanhei a mochila preta e joguei as alças no ombro esquerdo. Fui caminhando para a Estação de Santa Apolônia. À meia-noite iria tomar o trem para a Espanha. Tudo o que eu queria ao atravessar o Atlântico era um lar, a banalidade dos felizes, não estar integrado em uma civilização superior, mesmo que essa civilização agora abrigasse Blandine - não entrava em meus motivos conscientes. Não me interessava senão o pouco que a economia destroçada de meu País já não permitia. E, em vez, a liberdade de longas estradas dando em lugar nenhum, em lugares-comuns - 1992, unificação européia, abertura das fronteiras, grande crescimento paralelo da discriminação aos imigrantes e dos movimentos anti-racismo. Eu estava cansado. A magia das palavras e a busca da metáfora perfeita eliotizavam-me e vida em fragmentos poéticos volatilizados na chaminé da fábrica que funcionava em meu caderno, administrada pelo caos, misturadas talvez à perspectiva de um salário de navalha pago antes da falência - ensangüentados crepúsculos solitários derramando-se em minha mente perturbada. E eu não estava entre as melhores cabeças de minha geração, como um Ginsberg, nem escrevera discursos perfeitos pela percepção de minha verve sobrenatural.
Entardecia.
E eu sequer freqüentara uma universidade ou a plenitude de minha alma e sentia não fazer sentido o legado de meus escritos dispersos. Aceitara, contudo, a encomenda de um texto relacionado à passagem dos vinte anos do maio dado à luz pelo ventre de Paris e iria entrega-lo pessoalmente na revista espanhola; depois, tentaria apaziguar em Madrid meus temores ancestrais e a opressão dos dias. Deus, pensei, por que esses sentimentos paliativos?
Eu não voltaria mais ao mundo, eu não voltaria mais. E, se não voltaria mais, por que não haveria de tornar a olhar o céu sem medo e me importava tanto com a opinião das pessoas? De nada valera a vivência exceto para descreve-la? Eu estava saturado de lidar com palavras sem a respectiva vida. Não tinha qualquer razão, não tinha, para deixar de seu eu mesmo, para ser o que pensava e viver como escrevia (e isso com a disponibilidade máxima para riscos). Eu não voltaria mais - que é o Tempo? - e o sopro de vida seria de mim tirado como aquele trem da plataforma 1. Exceto minhas ações, nada restaria, e elas responderiam, os seus motivos, ao me chamarem após a minha morte. Por que então não bendizer toda contingência de meu respirar efêmero, incluindo as atuais conseqüências de ter me desfeito de tudo para entrar naquele avião da TAG, junto aos demais passageiros mas com passagem só de ida? Por que não deixar meu espírito escrever luz no cascalho da fronteira e continuar a ver as pedrinhas brilhando entre os trilhos, mesmo depois que a anunciada chuva apagasse a transcendental grafia.
Eu tinha uma amada ausente, presente na foto em minha carteira e em algum recôndito do coração. Ela longe, eu era livre, mas não sabia até que ponto, não sabia se era bom.
Nem mesmo sabia se era a amada - o que é Amor? Afinidade? Desejo? Embora eu julgasse estar amando, e talvez estivesse, eu ainda estava por descobrir a resposta. Assim como navegar bem exige precisão, viver também o exige. Na cabina solitária do vagão, chegavam cheiros de todos os quartos das casas que na escuridão iam passando. Na Estação de Atocha, Madrid pela manhã, todos os rostos traziam o seu, como um ciclo de Dulcinéias, eu Quixote. A vida é irônica, pensei. Eu havia tido algumas mulheres, mas não era um libertino, nunca fora infiel - e Francesca, casada, me levava a reavaliar conceitos. Eu esperava na perfeição de uma musa única, até a toquei quando toquei Blandine, amada ausente, mas fui tragado pela promiscuidade. O tempo continuava carregado.
Entrei no pequeno hotel e fiquei com o quarto. Tocava Tchaikovski nos fones. Madrid, como eu a via: romântica, amarela, terapêutica, um claro e novo amanhecer. Lá fora a velha noite trovejou: solidão... solidão... Uma assombrosa periculosidade rastejava em torno, qual serpente. Meu Outro seria para sempre um espectro? O recém-nascido morreria, antes de não mais temer seus temores? Eu continuaria morrendo através do tempo? Estava terminando o meu texto e sabia, mal acabasse, nada mais restaria de mim, daquele eu mais justo que me possuía ao escrever. Era um impasse. Abrir mão dos vislumbres e conforma-los aos mecanismos da normalidade e me conformar ao conforto transitório, ou nadar contra a corrente, ir nem pela direita, nem pela esquerda nem pelo centro - pelo alto - e fluir sem influência da sombra do dinheiro. E ficar exposto a privações e provações nem sempre suportáveis. Meu ser não era meu, só um efeito cuja causa não era eu, ou pelo menos não plenamente eu.
Mas tinha esperança.
A perfeição passa por uma negra floresta de pompas e circunstâncias, pelas volúpias do tempo e do poder. De qualquer forma, eu, recém-nascido de um Maio há vinte anos, logo estaria morrendo outra vez - até quando? Os relâmpagos ecoaram em meu cérebro, mosaico de assombrações. Lembranças palpitavam, querendo a alma arranca-las da memória e traze-la à mão, tornadas rosa, cujo aroma desnorteasse a serpente e invertesse o ruído do trovão. Olhei a janela enquadrando o céu e uma estrela irreverente apareceu, imponente ou simplesmente só, em minha própria solidão como um sinal - que o vento levasse o que visse e visse o vento quando eu não pudesse mais. A vivência não haveria de seguir com as nuvens, mas ficar com a estrela. Eu não voltaria mais e o efeito libertar-se-ia, não haveria de passar nem nada legar aos que estavam na festa e aos que iam chegar, quando olhassem por uma janela.

Ricardo_de_Almeida_Rocha


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