O universo refletia da tarde na água.
Diante do cartão-postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, eu evocava meu primeiro diálogo com Francesca, levado pela intrínseca relação entre a reminiscência e os dois sóis, com minha vinda de um para o outro. Na margem do Tejo, o suposto vendedor de haxixe - na verdade caldo concentrado de galinha prensado com louro - abordava os estrangeiros, simpático enxame qual babel preguiçosa à beira do rio. Eflúvios tagídeos me esperavam na posta restante, na carta de Kátia, jovem que conhecera em Veneza, e nos instigamos, e ficamos naquele jogo de olhares e palavras dúbias, sugerindo a celebração íntima de um querer reticente, o implícito no limite da revelação. Enquanto isso dura, resiste uma inquieta amizade - e ficamos amigos. Agora, ela me escrevia de Muggio, falava de seus trabalhos e estudos em Milão preenchendo sua vida solitária, de suas muitas atividades, de todo o seu tempo tomado, mas dera assim mesmo um pulo a Moscou depois de uma breve excursão pelas capitais da comunidade européia, já beneficiando sem membros com a livre circulação de pessoas e mercadorias. Falava. Eu podia ouvir a sua voz, com uma naturalidade para mim apenas compreensível de quem diz ter ido ver o crepúsculo na varanda de sua casa. Ah, o tom confuso do mundo de camponeses e reis, dos pedestais da aristocracia feminina e ternos vagabundos sob o sol.
Kátia não era personagem central em minha história, mas passava algumas questões centrais, como a da fidelidade, dilacerante dilema na vida do homem jovem que se acha velho demais para encontrar o amor perfeito idealizado na juventude. "Na noite, a chuva; na chuva, as lembranças" - escrevia ela - "e, nas lembranças da chuva, traços que ainda se juntam: você". A vida seria aquilo? - emoções que chegam com o destino recôndito de serem tragadas pelas pressões do cotidiano, pelas regras da sociedade, e pelas nossas próprias interrogações sobre o que é a vida? "Quis escrever antes, mas não encontras palavras; enfim, me decidi, pois que são palavras senão apenas signos inertes aos quais se atribui valor?" - eu lia e me perguntava se ela estaria certa; eu morria e tentava acreditar num resgate, que minha poesia pudesse transmitir a plácida vivência que nos predispõe a aceitar os sucessos e os infortúnios como se não fossem e nos ensina a ver pelo prisma da posteridade, era importante que o fizesse, mesmo fosse a minha uma posteridade de ninguém.
Também me perguntava por que afinal eu viera e quanto tempo ficaria na Europa. Eu não sabia. Talvez aquele continente tivesse arrastado minha alma morta, como o Ocidente chamou a Gogol; talvez aquele continente tivesse me trazido, como das Ilhas trouxe Joyce (Trieste latejava em meu sentimento) - como as palavras às vezes se escrevem a si mesmas. Eu não decidiria o dia de minha volta, se é que haveria um dia de voltar - um oceano se interpunha e eu queimara a ponte atravessada. O Brasil se tornara, após tantos meses, nada além de memória da bruma. "Eu queria ouvir de novo a sua voz", finalizava a carta, e eu não sabia mais o que querer, hesitava mesmo quanto a crer na validade de meus escritos, a minha voz: valeria a pena tentar dizer o indizível? A Portugal chegara com objetivos seculares, um emprego em jornal. Se no meio do caminho descobri a miséria e a grandeza da literatura, devia-se mais à vaidade da qual fugira. E corri-lhe ao encontro.
Então me vi na carta. Não é uma metáfora. Vi-me na carta. O papel fino me refletia ali sentado, recortado contra o trânsito fluindo no sentido da saída para o Porto. Um brilho imperial acinzentado cobre o casario nas ladeiras ao redor e o cheiro de vinho no ar ao de grelha e rio se mistura. Há Kátia na memória de minha língua. Tamborilam as fontes nos ladrilhos rangentes à passagem dos bondes. O prédio da esquina do Paço erguia-se triste em cicatrizes e olhos, duplicando-se abaixo, ao longo da poça no meio-fio. Minha gola de zuarte estava levantada até a orelha e as sobrancelhas encontravam-se na glabela. No cenho, a leitura converteu-se em saudade e dor. Ergui os olhos. As dragas sorriam ao empurrar as ondulações até a superfície sáxea que à direita marginaria a avenida até a torre de Belém. Se esperava a subsistência do jornalista e do escritor o nome, escapou-me um calafrio ao saber do delírio que, ao escrever, apenas deveria esperar manter a sanidade e transcender a fome e o frio.
"Hoje será transmitida a décima sinfonia de Beethoven..." - liguei-me nas palavras que nos fones eram-me transmitidas, mas um avião passando interferiu na audição; depois, sonoridades gloriosas de flash de apresentação invadiram meus ouvido, substituindo o locutor. Restou-me a idéia da vida legitimada após a morte; da ausência como única circunstância eterna (seremos meros acasos no mundo ou será o mundo o mero acaso em nós, pano de fundo das existências); de a perfeição possível ser póstuma, assim como a verdadeira vida: a imortal. Foi a última notícia, a descoberta do dez onde só há nove. Vagando eu nas cintilações da água à luz que a meus pés derramava as sombras do alegre grupo de língua francesa sentado em círculo à minha frente, tomou-me a irreversível necessidade da arte, que trabalha revertendo vicissitudes, pela voz feminina que abria o programa seguinte da emissora. Perdi-me nas possibilidades de minha vocação e, naquele labirinto, comunicou-se-me o velho sentimento temido, de missão. Eu me sentia entrar entrando, sem entender a causa. Mas descobri uma coisa: é preciso dizer tudo a todos de todas as formas para se chegar a algo que acrescente espiritual eugenia à carência de um sentido para a vida.
Lisboa, os portugueses a repartindo com europeus do Centro e do Norte, à vontade em leves roupas coloridas, ao chamado do sol ibérico, e com negros vindos das ex-colônias africanas, sentados atrás da igreja de São Domingos, logo ali depois da Praça da Figueira, ou à entrada dos Correios defronte ao à Estação do Metrô dos Restauradores. A primavera trazia o humor de seus humores tanto do verão que passara quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos. Give me light? - sorriu a descontraída jovem, cujo vermelho da pele acusava a palidez congênita.
Os mochileiros se movimentavam como numa festa íntima.
Eu estaria apto a lhes oferecer alguma luz, com a mesma naturalidade com que lhes acendia os baseados? Ou seria o recreio, e não mais, o jardim, e só isso - menestrel na festa européia, sem qualquer dimensão de arauto do mundo uno, na pluralidade de raças sugerida ali na rua Augusta, pregado por uns para a política da Comunidade Européia e, por outros, para toda a humanidade. Toda essa retórica era discurso de projeção pessoal, conteúdo de veias exangues - e ser sangue, esta era a missão do arauto. Usaria a imprensa e denunciaria o mal, onde estivesse. Ou seria a voz calando em meu canto do poluído planeta não só da luta de classes (esboçava em minha mente o artigo sobre o maio de 68), mas sobretudo da concorrência alucinada entre membros da mesma classe social, tentando a todo transe afluir para onde a serena dignidade dos ricos assiste, cúmplice, o espetáculo - fato declarado com clareza pela postura indolente dos turistas e a pressa desvairada dos homens e mulheres lisboetas fardados de sobrevivência, ali na Praça do Comércio.
Calcei-me e desci do mundo onde estava sentado à vista dos cacilheiros. Apanhei a mochila preta e joguei as alças no ombro esquerdo. Fui caminhando para a Estação de Santa Apolônia. À meia-noite iria tomar o trem para a Espanha. Tudo o que eu queria ao atravessar o Atlântico era um lar, a banalidade dos felizes, não estar integrado em uma civilização superior, mesmo que essa civilização agora abrigasse Blandine - não entrava em meus motivos conscientes. Não me interessava senão o pouco que a economia destroçada de meu País já não permitia. E, em vez, a liberdade de longas estradas dando em lugar nenhum, em lugares-comuns - 1992, unificação européia, abertura das fronteiras, grande crescimento paralelo da discriminação aos imigrantes e dos movimentos anti-racismo. Eu estava cansado. A magia das palavras e a busca da metáfora perfeita eliotizavam-me e vida em fragmentos poéticos volatilizados na chaminé da fábrica que funcionava em meu caderno, administrada pelo caos, misturadas talvez à perspectiva de um salário de navalha pago antes da falência - ensangüentados crepúsculos solitários derramando-se em minha mente perturbada. E eu não estava entre as melhores cabeças de minha geração, como um Ginsberg, nem escrevera discursos perfeitos pela percepção de minha verve sobrenatural.
Entardecia.
E eu sequer freqüentara uma universidade ou a plenitude de minha alma e sentia não fazer sentido o legado de meus escritos dispersos. Aceitara, contudo, a encomenda de um texto relacionado à passagem dos vinte anos do maio dado à luz pelo ventre de Paris e iria entrega-lo pessoalmente na revista espanhola; depois, tentaria apaziguar em Madrid meus temores ancestrais e a opressão dos dias. Deus, pensei, por que esses sentimentos paliativos?
Eu não voltaria mais ao mundo, eu não voltaria mais. E, se não voltaria mais, por que não haveria de tornar a olhar o céu sem medo e me importava tanto com a opinião das pessoas? De nada valera a vivência exceto para descreve-la? Eu estava saturado de lidar com palavras sem a respectiva vida. Não tinha qualquer razão, não tinha, para deixar de seu eu mesmo, para ser o que pensava e viver como escrevia (e isso com a disponibilidade máxima para riscos). Eu não voltaria mais - que é o Tempo? - e o sopro de vida seria de mim tirado como aquele trem da plataforma 1. Exceto minhas ações, nada restaria, e elas responderiam, os seus motivos, ao me chamarem após a minha morte. Por que então não bendizer toda contingência de meu respirar efêmero, incluindo as atuais conseqüências de ter me desfeito de tudo para entrar naquele avião da TAG, junto aos demais passageiros mas com passagem só de ida? Por que não deixar meu espírito escrever luz no cascalho da fronteira e continuar a ver as pedrinhas brilhando entre os trilhos, mesmo depois que a anunciada chuva apagasse a transcendental grafia.
Eu tinha uma amada ausente, presente na foto em minha carteira e em algum recôndito do coração. Ela longe, eu era livre, mas não sabia até que ponto, não sabia se era bom.
Nem mesmo sabia se era a amada - o que é Amor? Afinidade? Desejo? Embora eu julgasse estar amando, e talvez estivesse, eu ainda estava por descobrir a resposta. Assim como navegar bem exige precisão, viver também o exige. Na cabina solitária do vagão, chegavam cheiros de todos os quartos das casas que na escuridão iam passando. Na Estação de Atocha, Madrid pela manhã, todos os rostos traziam o seu, como um ciclo de Dulcinéias, eu Quixote. A vida é irônica, pensei. Eu havia tido algumas mulheres, mas não era um libertino, nunca fora infiel - e Francesca, casada, me levava a reavaliar conceitos. Eu esperava na perfeição de uma musa única, até a toquei quando toquei Blandine, amada ausente, mas fui tragado pela promiscuidade. O tempo continuava carregado.
Entrei no pequeno hotel e fiquei com o quarto. Tocava Tchaikovski nos fones. Madrid, como eu a via: romântica, amarela, terapêutica, um claro e novo amanhecer. Lá fora a velha noite trovejou: solidão... solidão... Uma assombrosa periculosidade rastejava em torno, qual serpente. Meu Outro seria para sempre um espectro? O recém-nascido morreria, antes de não mais temer seus temores? Eu continuaria morrendo através do tempo? Estava terminando o meu texto e sabia, mal acabasse, nada mais restaria de mim, daquele eu mais justo que me possuía ao escrever. Era um impasse. Abrir mão dos vislumbres e conforma-los aos mecanismos da normalidade e me conformar ao conforto transitório, ou nadar contra a corrente, ir nem pela direita, nem pela esquerda nem pelo centro - pelo alto - e fluir sem influência da sombra do dinheiro. E ficar exposto a privações e provações nem sempre suportáveis. Meu ser não era meu, só um efeito cuja causa não era eu, ou pelo menos não plenamente eu.
Mas tinha esperança.
A perfeição passa por uma negra floresta de pompas e circunstâncias, pelas volúpias do tempo e do poder. De qualquer forma, eu, recém-nascido de um Maio há vinte anos, logo estaria morrendo outra vez - até quando? Os relâmpagos ecoaram em meu cérebro, mosaico de assombrações. Lembranças palpitavam, querendo a alma arranca-las da memória e traze-la à mão, tornadas rosa, cujo aroma desnorteasse a serpente e invertesse o ruído do trovão. Olhei a janela enquadrando o céu e uma estrela irreverente apareceu, imponente ou simplesmente só, em minha própria solidão como um sinal - que o vento levasse o que visse e visse o vento quando eu não pudesse mais. A vivência não haveria de seguir com as nuvens, mas ficar com a estrela. Eu não voltaria mais e o efeito libertar-se-ia, não haveria de passar nem nada legar aos que estavam na festa e aos que iam chegar, quando olhassem por uma janela.
Ricardo_de_Almeida_Rocha
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